quarta-feira, 19 de outubro de 2011


Abaixo, segue uma passagem do livro “Imagens” de Ingmar Bergman.
É  autobiográfico; essa passagem é bem bonita...

SOBRE O SUICÍDIO

"Viajei à Suíca, e ali hospedei-me num gigantesco hotel, de luxo, com um nome muito costumeiro: Monte Verità. A temporada ainda não tinha começado, haveria ao todo uns dez hóspedes no hotel, o qual estava aberto embora em reforma.
Aquelas montanhas me deixaram deprimido, principalmente na hora em que o sol, assim de repente, deixa de ser visto logo às três da tarde, quando já está do outro lado dos cumes. Não falava com ninguém, mas dava longos passeios e tentava obrigar-me a um certo número de rotinas. Nas proximidades do hotel havia uma casa de repouso, de luxo, para aristocratas sifilíticos, os quais davam seus passeios ao mesmo tempo que eu. Era um espetáculo inacreditável, pois aquelas pessoas eram cadáveres vivos em diversos estados de decomposição, ainda que disfarçados o melhor possível. No meu desespero, aluguei um carro e fui até Milão. Fui ao La Scala e, da torrinha, assisti a uma representação miserável de Vésperas Sicilianas, de Verdi. Quando depois dessa excursão regressei ao Monte Verità, àquelas montanhas e aos doentes que por ali havia, sentia-me completamente arrasado.
Não raro tenho considerado o suicídio. Isso principalmente quando era jovem e a existência se me apresentava intolerável.
Naquela altura, na Suíca, compreendi que tinha chegado o momento propício. Estava disposto a sentar-me ao volante, descendo pela estrada em serpentina sem brecar para que tudo parecesse um acidente, e assim, perante o irremediável, não deixaria ninguém triste.
Foi então que recebi um telegrama de Estocolmo em que me pediam para telefonar ao senhor Dymling da Svensk Filmindustri.
Quando falei com Dymning ele me pediu para regressar à Suécia, não para realizar Sorrisos de uma noite de amor, mas para trabalhar com o diretor Alf Sjöberg. Eu receberia um pagamento adicional ao estabelecido no contrato de escravo que tinha com a companhia. Era coisa urgente, portanto. Aliviado, adiei meu suicídio e voltei para casa"

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